Um estudo inédito analisou 40 anos de transformações na zona costeira do estado do Rio de Janeiro e revelou um cenário complexo. Embora a maior parte da paisagem ainda permaneça relativamente estável, focos importantes de degradação continuam avançando, impulsionados principalmente pela expansão urbana e pela pressão sobre ecossistemas sensíveis.
Entre outubro de 2023 e fevereiro de 2026, conduzimos um levantamento detalhado de cerca de 21.980 quilômetros da área costeira fluminense. Nosso foco foi o bioma da Mata Atlântica e os ecossistemas associados à faixa litorânea.
O resultado acaba de ser reunido em um relatório que oferece um inventário inédito da degradação de terras ao longo das últimas quatro décadas. Além de mapear as transformações da paisagem, o estudo também identifica áreas prioritárias para conservação e recuperação ambiental. E oferece subsídios para futuras políticas públicas no estado.
Vulnerável por natureza
O Rio de Janeiro é frequentemente associado a paisagens naturais exuberantes. No entanto, essa riqueza ambiental convive com uma fragilidade ecológica significativa.
Uma das características marcantes do estado é o intenso estresse hidrológico. São chuvas fortes e prolongadas que aumentam o potencial de erosão do solo.
Ao mesmo tempo, o território apresenta uma geografia complexa. O relevo é íngreme, fortemente dissecado e solos altamente intemperizados. Essa combinação de fatores naturais torna a região particularmente suscetível à degradação.
Ecossistemas costeiros como manguezais e restingas, são especialmente sensíveis a essas condições.
O problema se agrava com a pressão humana. A expansão urbana acelerada — muitas vezes desordenada — tem ocupado encostas instáveis e áreas úmidas, alterando profundamente o equilíbrio da paisagem.
Somam-se a isso o desmatamento irregular, práticas agrícolas inadequadas e incêndios florestais. Esses fatores intensificam os processos de erosão e perda de solo. E transformam encostas antes cobertas por vegetação em superfícies expostas e vulneráveis.
Sem a proteção da cobertura vegetal, o solo torna-se mais suscetível à ação da água da chuva. O resultado pode ser a perda rápida de fertilidade, a degradação progressiva da terra e, em casos extremos, deslizamentos e enxurradas — tragédias que já marcaram diversas regiões costeiras e serranas do estado.
Metodologia internacional aplicada pela primeira vez no Brasil
Uma das principais contribuições do estudo foi adaptar para o contexto brasileiro uma metodologia internacional de avaliação da degradação das terras.
Utilizamos o método desenvolvido pelo Centro de Atividades Regionais do Programa de Ações Prioritárias do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma).
Essa abordagem já é amplamente aplicada em diferentes partes do mundo, mas tradicionalmente em regiões semiáridas ou mediterrâneas.
Nesses ambientes, os estudos costumam se concentrar em problemas como desertificação e declínio da vegetação associados à escassez hídrica.
No caso brasileiro, testamos a metodologia pela primeira vez em um ambiente costeiro tropical úmido, adaptando os parâmetros para as condições ecológicas da Mata Atlântica.
Para isso, utilizamos sensoriamento remoto e sistemas de informação geográfica, combinando diferentes bases de dados ao longo de um período de 40 anos (1984–2024).
A análise incluiu imagens dos satélites Landsat 5 TM (1985) e Landsat 8 OLI (2023). Para obter maior detalhamento espacial e validar os resultados, também utilizamos imagens de alta resolução da Airbus (2025) e do Esri World Imagery Basemap, acessadas via Google Earth Pro.
O levantamento abrangeu uma área que inclui municípios como Cachoeiras de Macacu, Maricá, Paraty e Angra dos Reis, entre outros. A partir dessas informações, desenvolvemos um índice de risco baseado em 14 variáveis ambientais, permitindo classificar as áreas segundo diferentes níveis de estabilidade ou vulnerabilidade.
Esse procedimento possibilitou identificar hotspots de degradação e estabelecer zonas de prioridade alta, média ou baixa para intervenções ambientais.
O projeto também contribui para fortalecer a capacidade institucional e científica no estado. E demonstra que metodologias internacionais podem ser adaptadas com sucesso às condições ambientais brasileiras.
O que os dados revelam sobre a costa fluminense?
Apesar da presença de áreas degradadas, os resultados indicam que grande parte da região analisada permanece relativamente estável, especialmente em áreas com cobertura florestal.
Ainda assim, o estudo mostra que avanços na estabilidade ambiental podem ser rapidamente anulados pelo declínio das áreas úmidas costeiras, frequentemente associado à expansão urbana.
Esse processo é particularmente visível em algumas áreas próximas a Angra dos Reis, onde a pressão imobiliária tem avançado sobre ecossistemas sensíveis.

Achado inesperado nas Ilhas Maricás
Um dos resultados mais curiosos do estudo surgiu nas Ilhas Maricá.
Durante o período analisado, observamos a presença relativamente estável de cerca de 50 cabras na área. Ao mesmo tempo, indicadores ambientais apontavam melhoria ecológica da vegetação.
Esse padrão levou à hipótese de uma possível relação ecológica positiva. Processos como pastejo seletivo, ciclagem de nutrientes, dispersão de sementes e criação de microssítios favoráveis à germinação podem ter contribuído para esse resultado.
O caso mostra como os efeitos de espécies introduzidas podem ser mais complexos do que se imagina. Embora em muitos contextos herbívoros introduzidos causem degradação ambiental, nossos resultados sugerem que, em determinadas condições, populações equilibradas podem contribuir para a manutenção ou até a melhoria da cobertura vegetal em ecossistemas insulares. Novos estudos ainda são necessários para compreender plenamente essa dinâmica ecológica.
Importância dos resultados
Os resultados do estudo reforçam a necessidade de estratégias de conservação mais específicas e adaptadas às características de cada território.
Avaliações ambientais detalhadas, baseadas em dados de longo prazo, são fundamentais para compreender como paisagens complexas, como as da costa fluminense, respondem às pressões humanas e às mudanças ambientais.
Ao reunir quatro décadas de informações, o estudo oferece um panorama inédito sobre a evolução da degradação do solo no litoral do Rio de Janeiro. Além disso, fornece uma base científica para orientar políticas públicas de gestão ambiental e planejamento territorial.
A pesquisa descrita neste artigo foi financiada pela Fundação Carlos Chagas Filho de Amparo à Pesquisa do Estado do Rio de Janeiro (Faperj), por meio do Programa Luiz Pinguelli Rosa de Apoio à Mobilidade e Instalação de Pesquisadores originários de Regiões em Conflito em Instituições de Ciência e Tecnologia do Estado do Rio de Janeiro.
